Alice Muglia Thomaz da Silva Amâncio

     Sou Alice Muglia Thomaz da Silva Amâncio, muriaeense, bióloga, e atualmente atuo como pesquisadora do Hospital do Câncer de Muriaé da Fundação Cristiano Varella.

    Sou filha primogênita da muriaeense Magda Helena Muglia Thomaz e do carioca Olinto José Muniz da Silva. Meu bisavô materno, Pedro Muglia, veio ainda criança da Sardenha, na Itália, com a família. Se estabeleceu em Muriaé, onde teve 9 filhos. Minha avó, Iolanda, ainda mora na mesma casa da família construída pelo meu avô, no bairro Aeroporto.

    Meu pai se mudou para Muriaé depois de se formar em Medicina. O convite para vir a Muriaé foi feito pelo meu já falecido tio Alfredo Canedo, casado com a irmã de meu pai, Regina. Alfredo é irmão do conhecido pediatra muriaeense Christiano Canedo, que recebeu o meu pai na cidade com muito carinho.

   Meus pais se conheceram quando ambos trabalhavam na Casa de Saúde Santa Lúcia. Se casaram em setembro de 1981, e eu nasci em maio de 1983. Em 1986, ganhei o melhor presente que meus pais poderiam me dar – meu irmão Henrique. Crescemos em Muriaé. Fiz a pré-escola no Dedo Verde, que já não existe mais. Fiz toda a educação fundamental e básica no Colégio Santa Marcelina, instituição pela qual guardo um imenso carinho! Me lembro com muita gratidão de cada uma das minhas professoras. Ainda tenho algumas cartinhas enviadas pela Irmã Fátima, minha professora na terceira série do fundamental. Cresci nesse ambiente de muita disciplina e também muito acolhimento.

     No ensino médio, mudei de escola para iniciar uma nova proposta de ensino que surgia em Muriaé: a Escola Técnica de Formação Gerencial (ETFG). A escola era uma parceria com o SEBRAE/MG, e tinha o objetivo de dar uma formação técnica em Administração de Empresas juntamente com o segundo grau. Meus pais, confiantes na capacidade e profissionalismo dos professores que encabeçaram e se envolveram no projeto, decidiram que seria uma boa oportunidade para mim que, neste momento da vida, como a maioria dos adolescentes, não tinha muita certeza do que queria escolher como profissão. Que orgulho de ter aprendido com tantas pessoas maravilhosas! É sempre complicado citar nomes, mas alguns eu não poderia deixar de falar aqui... Maria Alice Catapreta, Ângela Botelho, Luciano Rodrigues, Luiz Fernando Braga (e seu amor por Clarice!), Vander Lima, Roberto Sabadini, Sandro Souza... Os saudosos Lúcio Gusman, Luiz Gonzaga, Marcus Latini... Ah, Marcus, você nunca saberá o quanto eu ainda guardo das suas palavras e seus conselhos! Ser professor é, verdadeiramente, poder marcar almas! Zilmar e Regina, sempre com os braços abertos para nossos sorrisos ou nossas lágrimas!

     Estudar na ETFG foi um grande marco na minha vida! Fiz parte da primeira turma – e que turma!! São pessoas que, não importa quanto tempo passamos sem nos ver ou nos falar, o carinho permanece! Nos primeiros anos, a escola funcionava em período integral, no bairro Sofocó. Tínhamos um ônibus “especial” que nos levava e nos buscava. Quantas memórias, quantas histórias!!! Depois, a escola se mudou para o bairro da Barra. Nesse momento, nossa atenção se voltava para o vestibular. Cada um seguiria seu caminho.

    Decidi que queria fazer Ciências Biológicas, e comecei a cursar, aqui na Faculdade Santa Marcelina de Muriaé. Eu pertencia à segunda turma. Depois de um semestre, passei no vestibular para a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), e me mudei para Campos dos Goytacazes. A UENF é uma Universidade relativamente nova. Eu entrei em 2004, no 11o vestibular da UENF. Idealizada por Darcy Ribeiro, ela foi a primeira universidade brasileira onde todos os professores têm doutorado. A ênfase na pesquisa e na pós-graduação faz da UENF uma universidade para formar cientistas. No segundo ano de faculdade, eu já estava estagiando em um dos laboratórios de pesquisa da Universidade.

    Eu sempre quis trabalhar com saúde humana. Mais especificamente, com câncer. A oncologia sempre foi meu sonho. Mas o foco da pesquisa na UENF são as ciências naturais, ambientais e agrárias, sendo poucos os grupos de pesquisa que trabalhavam com saúde humana naquela época. Decidi, então, fazer minha iniciação científica e trabalho de conclusão de curso (TCC) no laboratório de bioquímica de plantas, com a Dra. Elenir Oliveira, uma cearense super competente que me ensinou muito, muito além da bancada. Comecei também a trabalhar como professora de inglês, no curso Wise Up, em Campos. Eu havia terminado o curso de inglês no CCAA em Muriaé há alguns anos, e sentia que precisava continuar praticando a língua. Foi minha primeira experiência verdadeiramente profissional, e me fez crescer muito. Fiz grandes amigos, entre alunos e colegas professores. Sem deixar de lado as obrigações da faculdade, me tornei monitora de Bioquímica, e terminei meu curso em fevereiro de 2008. No último semestre, dividi meu tempo entre a conclusão do TCC e as provas para ingressar no Mestrado. Não consigo colocar em palavras a emoção que senti quando fui aprovada no Mestrado no Hospital do Câncer A.C.Camargo em São Paulo.

    De mudança novamente, contei, como sempre, com o apoio do meu pai e presença constante da minha mãe que, mesmo separados, sempre foram uma base sólida para mim e meu irmão. Um novo mundo, com muitos desafios. Meu orientador, o patologista Dr. Fernando Soares, sempre motivava sempre meu crescimento e criava um ambiente rico e motivador para a pesquisa. Meu trabalho consistia em buscar marcadores moleculares que pudessem facilitar o diagnóstico ou prever como a doença iria progredir em pacientes com tumores urológicos.

    Grande referência na pesquisa oncológica no Brasil e reconhecido mundialmente, no A.C.Camargo tive a chance de conversar e conhecer pesquisadores de renome na área, assistir palestras sobre todos os aspectos da Oncologia e participar de eventos no Brasil e no exterior. Fiz grandes amigos que hoje são, também, colaboradores no trabalho. Ali eu pude ver e ouvir minhas maiores inspirações na ciência.

    Do mestrado, fui para o Doutorado, trabalhando no mesmo projeto. Nesta época, eu já estava noiva do também muriaeense Rondinele Amâncio. Nos dividimos entre São Paulo, Belo Horizonte (onde ele morava) e Muriaé, para estar com nossas famílias. Nos casamos em 2013, quando me mudei para BH. Mas ainda ia quase toda semana a São Paulo, pois estava no último ano do doutorado. Defendi minha tese em dezembro de 2014, quando fiquei de vez em BH.

    Decidi, então, aproveitar a mudança para mudar também um pouco o foco da minha pesquisa, e aprender um pouco mais de Imunologia. Imunologia e Oncologia se complementam, e muitos dos tratamentos oncológicos disponíveis atualmente consistem em manipular a resposta imunológica para que ela auxilie no combate ao tumor. Então, procurei o imunologista Dr. Ricardo Gazzinelli, grande nome no cenário científico internacional. Professor na UFMG, na Universidade de Massachussets e pesquisador no Centro de Pesquisas René Rachou, da Fiocruz/MG. Na época, ele tinha uma linha de pesquisa em andamento de imunoterapia oncológica, junto com a Dra. Caroline Junqueira. Ricardo me convenceu, entretanto, que eu deveria me envolver em um projeto de imunologia clássica, já que essa era a grande expertise do laboratório dele. Eu topei o desafio e comecei a trabalhar em um projeto que envolvia a resposta imune de humanos ao protozoário Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose. A maioria das pessoas não percebem nenhum sintoma quando se infectam, e nem sabem que já tiveram contato com o parasita. Apesar disto, ainda não entendemos exatamente como o nosso sistema imune consegue reconhecer o T. gondii e gerar uma resposta contra ele. Em camundongos, essa resposta é bem descrita: envolve proteínas, na superfície das células de defesa dos camundongos, que não estão presentes nas células de defesa humanas. Essa descrição foi objeto de estudo do professor Gazzinelli no início de sua carreira. O objetivo do meu pós-doutorado era tentar descrever quais proteínas na superfície de células de defesa humanas seriam as responsáveis por reconhecer e combater o T. gondii.

    Esse projeto me abriu as portas para passar uma temporada nos Estados Unidos, no maior centro de pesquisas médicas do mundo, o National Institutes of Health (NIH), em Bethesda, próxima a capital do país, Washington, DC. Em 2016, me juntei ao laboratório de doenças parasitárias do Dr. Alan Sher. Com ele e com a pesquisadora Dragana Jankovic, trabalhei por 3 anos tentando caracterizar a relação entre o parasita e as células de defesa humanas. Embora não tenhamos conseguido identificar a proteína específica responsável pelo reconhecimento do parasita, nosso trabalho fez descobertas importantes sobre um tipo específico de células do nosso sangue – os monócitos, como eles respondem a estímulos de patógenos e como quadros de inflamação prévias modulam a atividade dessas células frente a novas infecções.

    Já vinha crescendo em mim e no meu marido Rondinele o sonho de aumentar nossa família. O ritmo de trabalho acelerado nos Estados Unidos e a distância da família começaram a pesar, então decidimos voltar ao Brasil. Chegamos em Muriaé em fevereiro de 2019, quando eu estava grávida do nosso primeiro filho. Nosso Ravi nasceu em julho, trazendo muitas alegrias para nossas famílias.

    Quando decidimos voltar a Muriaé, eu não imaginava que seria possível eu continuar minha carreira de pesquisadora na cidade. Então, procurei alguns amigos na FAMINAS, para que eu pudesse trabalhar como professora. Foi uma grata surpresa descobrir que, no ano anterior, o Hospital do Câncer de Muriaé (HCM) havia implementado um Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, e estava contratando pesquisadores doutores. Foi um daqueles momentos em que temos certeza que Deus está no comando, e nos coloca exatamente onde deveríamos estar.

    Fui contratada como pesquisadora em fevereiro de 2020. Junto com o coordenador de Departamento, Sérgio Gomes de Silva, e o pesquisador Alexandre Bittencourt (ex-professor e agora colega de trabalho) estamos estimulando a pesquisa científica na Instituição. Neste primeiro ano, foram desenvolvidos diversos trabalhos por colaboradores da instituição e acadêmicos da FAMINAS Muriaé. Tenho trabalhado em duas linhas de pesquisa principais. A primeira consiste em identificar pacientes com tumores hereditários e síndromes hereditárias de predisposição ao câncer. Essas famílias têm um risco maior de desenvolver certos tipos de tumores do que a população em geral, e precisa ser acompanhada de forma diferenciada. A segunda linha, que ainda está em fase de implementação, envolve avaliar os benefícios da prática de meditação para os trabalhadores da saúde. Esse trabalho é fruto da minha formação complementar como instrutora de yoga e da colaboração com o Dr. Sérgio Gomes, que é neurocientista e vai avaliar os impactos neurológicos após a prática de Meditação. Em setembro, iniciamos as sessões de meditação, guiadas por mim, aberta a todos os colaboradores do HCM. Esperamos que estes trabalhos possam gerar conhecimento e melhorar a vida dos pacientes e funcionários.

    Estar de volta a Muriaé é um grande presente. Estar perto dos familiares, comemorar os aniversários, estar presente nas comemorações, tomar um café juntos dos amigos, é um prazer que somente aqueles que passaram um tempo longe sabem valorizar. Pensar que todo o caminho que trilhei, aqui e no exterior, me ajuda a exercer meu trabalho em uma empresa da cidade é uma grande satisfação, e um trabalho que faço com muito amor. A indicação a esta homenagem é uma alegria.

 


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